quinta-feira, outubro 18, 2007

Perdas Estranhas

As imagens passam na minha cabeça, ouço aqueles sons, aqueles gostos, mais imagens...
Um escrito laranja, uma foto no portãozinho verde do clube, carnaval, filé ao molho madeira, a escadaria ao lado padaria, bateria, piano, o cabelo da mãe, a 43.
O Juninho, o irmão do Jôly, morreu.
Ele também era irmão do Gilbert, filho do Zé Luiz, que trabalhava com meu pai e da Valdeci que tinha o cabelo grande.
Jogava vôlei, era bem atraente na adolescência, cabelos pretos, forte, bacana, engraçado. Namorou a Márcia.
Um dia, fizemos a brincadeira do copo.
Num tempo, estivemos juntos quase todo o tempo.
Nesse tempo ele queria fazer medicina, soube que fez, como soube que foi morar em Uberlândia, que casou, teve filhos.
Nunca mais nos vimos, nem nos veremos.
Tristeza estranha. Como pode acontecer algo assim? Algo que acontece o tempo todo...
Adeus sempre tem, dito, anunciado, constado, sempre difícil, inacreditável, alheiamente concretizado.

quarta-feira, setembro 12, 2007

Quebra

Os palhaços se foram e me deixaram perdida, triste, sem rumo e sem fé.
Sinto falta da minha fé....
Otimismo ido.
Muito barulho por nada, muito esforço pra quase nada, muita DR pra nada, muita paixão desperdiçada.
Fim sem meio, sem concretização
Nada que paira... Poeira...
Vazio onde havia superação.
Vazio onde havia palhaçada.
Vazia eu.
Oca.
Grande e oca.
Sinto falta da tia Alva.
Sinto falta de mim.

segunda-feira, setembro 03, 2007

Norberto

Fim de expediente longo, desanimado, chato... De segunda deprimente
Sono e tristeza desmotivada me apertam o peito.
Saio mais cedo, sonolenta e desanimada..
No farol da Clóvis, bem na minha frente cai o Norberto da moto que foi uns metros para frente.
Norberto não consegue levantar. Eu chamo o resgate. Fazemos sinal para os carros não atropelarem Norberto.
Eu ligo para o trabalho dele. Ele continua lá caído, cheio de dor, os bombeiros chegam e eu me vou com a minha dor desanimada tão ridícula perto da do Norberto... Mais ainda perto da moça que pede esmola do lado da criança, que parece tão predestinada ao um futuro tão curto e cruel.
Eu sigo, passo no mercado para gastar o dinheiro que não tenho.
E volto para casa, ainda desanimada, mas com vergonha de tanta preguiça e depressão desmotivada, que resolvo até ler, até escrever, até estudar, até reagir.
Boa sorte Norberto!

sexta-feira, agosto 24, 2007

sexta-feira, julho 20, 2007

O Desabafo do Bêbado

"O interessante é que os pobres sempre lamentam a morte dos ricos, mas os ricos nunca lamentam a morte dos pobres."
(frase ouvida no vagão do metrô, dita por um senhor aparentemente bêbado)

terça-feira, julho 10, 2007

Tristeza

do Lat. tristitia
s. f.,
qualidade ou estado de triste;
consternação;
dó;
aspecto que revela mágoa ou aflição;
melancolia;
angústia.


A tela branca parece zombar de mim, enquanto meu peito aperta, minhas entranhas se contorcem. Eu me esforço para parecer equilibrada, centrada, para atender bem e explicar sobre o prazo recursal fatal. Está tudo normal, enquanto minha vontade é chorar e chorar e chorar e gritar e rasgar e chutar e sumir.

domingo, julho 08, 2007

Desencanto

Substantivo masculino.
1.Desencantamento.
2.Desilusão, desapontamento.

Desencantar
tirar o encanto a;
desenganar;
desiludir;
achar ou descobrir o que estava perdido;
v. refl.,
perder o encantamento


Tarde ensolarada
Eu desencantada

sexta-feira, julho 06, 2007

A Senhora da Passarela

Certo final de tarde ao passar pela passarela da Avenida Rebouças vi uma senhora negra de cara sofrida, lenço na cabeça, havia uma faixa enrolada em torno do seu tornozelo esquerdo, ela mancava, carregava uma sacola e andava muito devagar, quase se arrastando em direção ao Hospital das Clínicas. Caía uma chuva fina, ventava: Típico tempinho chato que costuma me deixar de mau humor.
Eu estava atrasada para a primeira aula de um cursinho de trânsito, cogitei ajudá-la, mas não ajudei. Pensei: Estou atrasada! Não me convenci, afinal, eu estou sempre atrasada.
Quarteirões à frente ainda olhei para trás, mas não voltei.
Será que alguém a ajudou? Por que não fui eu? Será que todo mundo que passou por ali também estava atrasado e não podia ajudá-la? Talvez todo mundo tivesse uma desculpa convincente para si, eu não.
Cheguei ao tal cursinho, a aula demorou a começar e eu fiquei lá sem ter o que fazer no meio de um monte de gente que eu não conhecia. Esperei longos minutos que me repetiram incessantemente que eu poderia ter carregado a sacola da senhora da passarela.
Se ela recusaria a minha ajuda, eu nunca vou saber. Sei que aquela chuvinha poderia ter pesado muito menos e aquele caminho poderia ter sido muito mais agradável para mim e para aquela mulher que eu vi por tão pouco tempo, mas que até hoje não sai do meu pensamento. Além disso, sei que neste momento, eu poderia estar escrevendo outra história, talvez bem mais interessante.

Cax Toledo
05/06/2002

terça-feira, junho 26, 2007

de pouco muita

Saudade
de pouca distância
de pouco tempo
Saudade-Vontade
de grudar
nem separar
Saudade-Apaixonada
que aperta o peito
feito lua cheia
que não chega.

domingo, junho 24, 2007

Quixote

Palavras
desnecessárias
metáfora
fábula
personagens
vagantes
flutuantes
emocionantes
Baba
Pança
alcança
lágrimas
bicicleta
crianças
felicidade
saudade
triste
despedida
gravada
obrigada

sábado, junho 23, 2007

Sobrepeso

Sobrepesada
Ouvidos tapados
A viola me oscila
Terapeuticas amigas
salvam
Os sentidos me confundem
mal
A profusão se difunde
Eu me floro
devoro
bebo
choro
comemoro
decido
aposto
no agora
bem.

sexta-feira, junho 15, 2007

Queimada Varrida

Os sentimentos não mudam feito queimada varrida
Lavada
Eu, profusa, sempre perdida
Sem coragem de ir
Cheia de medo
À espera
Do que não vem
Decepcionada
Não fiz
Queria
Limpa
Confusa
Difusa
Chapada
E muito mais
Sem mais

quinta-feira, junho 07, 2007

O Saca-Rolhas

Então, chegou o inverno, época de virar mulher-almofada.
Se alguma coisa me alegra no inverno é o vinho tinto... Como gosto!
Na primeira tentativa, meu saca-olhas quebrou, mais ainda assim abriu o néctar...
Perambulando pelo Hirota, comprei o saca-rolhas de R$ 13,19.... Um fiasco! Não quebrou, despedaçou-se na 1ª tentativa... Frustrante! Revoltante.
Chegou o dia do fondue(mais uma das poucas vantagens do inverno!) não tinha saca-rolhas... Para tristeza, o saca-rolhas Econ de R$2,15 quebrou na primeira e a técnica do afundamento falhou...
A namorada do vizinho nos presenteou com o canivete-saca-rolhas... Que quebrou de cara... Difícil demais a cabaça de Santa Carolina, só liberada em 25%, sofridamente, com martelo!
A incompetência do saca-rolhas me revolta...
O moço simpático da Iracema, com dificuldade, consegue abrir a nova garrafa. Diversão, fondue e vinho assegurados.
E eu a me perguntar: Como é mesmo relacionar?

Amar/Pirar/Apaixonar

Sensação tão boa, que dá medo!
Medo de perder, de largar, de não ir, de ir, tanto medo...
Sensação de não saber mais... Como é mesmo?
Tudo me parece tão assustadoramente bom e tão assustadoramente...
Que dá me medo de acabar, de não continuar, de continuar...
Dúvida
Dúvida, se a solidão não é melhor: Mais calma e centrada, apesar de solitária...
Medo de perder de tanto falar, de não falar e de perder de tanto ficar...
Profusa
Adoro a palavra profusa, deve ser a palavra de quem não sabe o que quer, como eu.
Mas eu quero... Sei que quero, só não sei o que fazer... Cubo mágico, Genius, nunca entendi direito essas coisas...
Nunca acreditei de verdade em... Nisso
Continuo gostando da palavra profusa, mas sei que já estou langada e mais nada
Nada!
Estou desencaixada.

quarta-feira, maio 30, 2007

l e v e

De repente, inesperadamente, caminhando nas Salinas e surpreendentemente, pelos Montes, a solução chegou a meio-termo, em realismo e alívio. Um sonho!
Corremos para a Toca, celebrando com Seleta e caldinho o fim da angustia.
O dia amanheceu gelado e leve.

terça-feira, maio 29, 2007

Branco Transparente

Ontem percebi que preciso decidir
Ficar ou partir
Ontem percebi que não consigo decidir.
Ninguém casa pensando em separação
Ontem assisti ao teatro Kaus
Nunca terminei um casamento
Ontem revi meus amigos
Nunca casei
Ontem bebi vinho
Parece divórcio
Ontem falei ao telefone
Como é difícil
Ontem fui ao supermercado
A decisão de partir me traz vazio
Ontem comprei rodo e vassoura
A decisão de ficar me pesa e cansa
Ontem comi um sanduíche de mortadela-muleta
Quando eu sair serei traidora-ingrata
Ontem dormi tarde e sonhei
Queria que houvesse um meio-termo

Hoje vi a água jorrar da fonte
Não há o meio-termo
Hoje o prédio está vestido de branco transparente
Ficar ou abandonar
Hoje continuo sem saber o que fazer
Não quero ficar nem abandonar

sexta-feira, maio 25, 2007

fim de tarde

E a tarde que estava tão fria e chata, de repente ficou tão carioca e alegre que eu até resolvi ensinar e cantar para esperar a sexta findar.

nuvens

Às vezes, me sinto tão nublada,
tão confusa,
tão tumultuada,
tão cheia,
tão vazia...
Às vezes, preciso ver o sol.

Dicionário e Nelson

paciência
do Lat. patientia
s. f.,
qualidade de paciente;
resignação;
conformidade em suportar os males ou os incômodos sem se queixar;
perseverança tranqüila;
calma na continuação de qualquer tarefa ainda que esta seja difícil ou muito demorada;
tranquilidade com que se espera aquilo que tarda;
nome de certos jogos de cartas;
interj.,
designativa de resignação ou conformidade.

(fonte: http://www.priberam.pt/dlpo/dlpo.aspx)

Já dizia Nelson Rodrigues:
A burrice é invencível...

quinta-feira, maio 24, 2007

Frio enterrado

Hoje está frio, sem chuva. Sair da cama nesses dias é sempre difícil.
Sonhei com o enterro da Vovó Gerônima, ela morreu quando eu tinha 13 anos, não sei porque sonhei com uma versão estranha do funeral.
O celular despertou, mas não consegui acordar às 7 para dar bom dia.
Cama, coberta e comida me são tão apaixonantes no inverno.
Consegui chegar ao trabalho, só faltava a disposição... Porém, telefonemas, ironias, datas e acórdãos errados quase me derrubam, sorte que não é TPM, senão poderia haver um surto... Preciso de yoga, zenzice, paciência, pensamento positivo (que O Segredo me ajude) e muito, mas muito mesmo, bom humor (mesmo o clima não ajudando).
Sampa, 11ºC

quarta-feira, maio 23, 2007

Irritação

(do Miniaurélio:
ir.ri.ta.ção
Substantivo feminino.
1.Ato ou efeito de irritar.
2.Estado de irritabilidade, mau humor, exasperação em que alguém se encontra.
)

O estagiário perdido me irritou, o advogado rebuscado mais ainda, o ternoso metido e cheio de perguntas me irritou, a advogada arrogante mais ainda.
O trabalhou me irritou, as pessoas mais ainda.
Finalmente o dia terminou, cheguei em casa, fiquei descalça e me joguei no sofá... Aí tive uma luz: O que me irritava era o sapato alto e desconfortável.

terça-feira, maio 22, 2007

Uma Despedida

Chegando de verde sob os olhares palhaços dos palhaços, tudo ia bem, estávamos felizes (embora ressaqueados).
Carregamos os carros e participamos do episódio: Perdidos em Itaquá, chegamos, descarregamos, trepamos nas colunas de luz, montamos, comemos, nos maquiamos e nos apresentamos para uma platéia maravilhosa.
Tia Alva dançava pela última vez para o fon fon nas mãos risonhas. A formiguinha respondeu à despedida definitiva do palhaço apaixonado.
O espetáculo terminou, pela última vez, em risadas.
Tudo desmontado, o sol se punha no caminho de volta.
E o fim... O fim mesmo, cheio de drama e mágoa, não merece comentários, não foi um fim digno para o maravilhoso bando de palhaços, tia Alva o desconsidera.
Prefiro lembrar da risada de Pititico, dos olhos de Piluko, do andar de Franjola, da inocência de Anjo, da dança de Biscuila e da música de Pindoba.
Prefiro lembrar, não de toda a dificuldade de Tia Alva, mas dos amigos inesquecíveis que ganhei, das crianças que fomos, somos, conhecemos e convivemos, do aprendizado e do despreendimento que conquistei, da paixão que me inundou e me modificou e modifica.
Hoje tem Palhaçada! E sempre terá nos corações dos amados palhacitos.
Besitos!

Mar de Guarda-Chuvas

Acordo, sem chance de dar bom dia, vejo a chuva caindo no quintal, sinto frio e preguiça.
Na praça, o vendedor desesperado, parece cheirado e grita sem parar:
Guarda-chuva é cinco!
A faixa de pedestres parece um mar de guarda-chuvas coloridos, vários azulados.
Adentro, atrasada, o local de trabalho. O que eu mais preciso é paciência. Que ela venha.

sexta-feira, maio 18, 2007

Sentido

Idealizando tudo resolvido, vi a resolução tão distante.
O sentido perto e a cachoeira jorrando.
Tudo me faz tão mal e tão inevitavelmente.
Parece vacina obrigatória e doída.
Eu me sinto tão e tão inundada.
E tão mais nada.

quarta-feira, maio 16, 2007

O ônibus

Ontem, quando eu saí do trabalho, um ônibus articulado me deu medo, tive a impressão de que a parte traseira não articularia e atingiria os pedestres que aguardavam o farol, inclusive eu, que recuei instintivamente para quase dentro do bar da esquina. O ônibus articulou e não acertou ninguém eu e todos os outros que estavam ao meu lado, seguimos nosso caminho.
Hoje de manhã, a história foi diferente, um ônibus atropelou quatro pessoas, uma morreu na hora.
Hoje eu cheguei mais tarde ao trabalho, desliguei o despertador e fiquei sonhando com Recife, não sei porque...
O local do acidente é próximo ao meu trabalho, por onde eu passo quase todos os dias saindo do metrô, o horário do acidente coincide com o horário que eu cheguei ao trabalho ontem.
Toda vez que a morte passa perto de nós, é inevitável pensarmos no assunto.

Parte da minha família é, eu digo, bastante mórbida, vários de meus parentes gostam deveras de falar de mortes e tragédias. Na cidade onde nasci, nas esquinas principais, eram afixadas as notas de falecimentos, sempre que eu estava com minha mãe ou meu tio, parávamos para ver o nome do defunto, minha sempre dizia: “Pode ser algum conhecido”. Meu pai trabalhou em um pequeno município, em que os falecimentos eram noticiados sonoramente por um caminhão que percorria a cidade. Minha avó tinha uma agenda escrito Falecimentos em diagonal, onde havia a data dos óbitos da família toda e amigos.

Quando eu saí para almoçar, prestei atenção na conversa das pessoas, já surgiram várias versões para o acidente. Uma moto fechou o ônibus. O motorista teve um mal súbito...
O ônibus já foi retirado do local, as vítimas também, o trânsito continua complicado, a Eletropaulo está recuperando o poste de luz derrubado. Todos comentam o acidente.

Quando eu era criança, devia ter uns 9 ou 10 anos, a pedido da minha mestra, fui buscar um apagador na sala dos professores e passei pelo pátio do colégio que tinha várias árvores. Pouco depois que eu retornei para a sala de aula, uma das árvores caiu, por estar cheia de cupins. Não houve vítimas, mas eu tive a impressão de que a morte passara perto de mim.

Hoje pensei nas vítimas do atropelamento, no motorista do ônibus, mas principalmente tive de novo aquela mesma sensação.

terça-feira, maio 15, 2007

Missa Conga

No domingo, 29 de abril de 2007, acordei e fui à missa no Largo do Payssandu.
A caminho, pelo sol, ao longo da São João, pela Virada, encontrei punks, zens, velhos, crianças, jovens, bêbados e beatos de todas as cores.
Em frente à Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, a entrada do padre e o batuque contagiante tanto contrastavam quanto se completavam, assim como os olhos do menino africano no colo do pai, os cabelos dourados da menina na barra da mãe, a perplexidade da alva mulher ao meu lado, a emoção do branco rasta e as muitas cores e sons dos grupos de congada.
De vários locais do Brasil, viam-se diferentes semblantes, batucadas e fés.
Meu passado católico aliou-se às minhas profundas raízes africanas e brasilianas, meu pés não pararam, meu corpo se entregou ao belo ritual, meus olhos se inundaram.
De repente, estávamos todos de mãos dadas, atados pela mesma energia.
A profusão daquele momento é inacessível neste.
Mas, inesquecível.






*TODAS AS FOTOS *

Florida

Fresca, com o mesmo cheiro de dove nos cabelos, florida, colorida em poesia, saí para o dia.
Não havia sol, e eu estava ensolarada, enluarada, na ausência da lua.
O barulho era dos carros, mas meus ouvidos insistiam em escutar o mar!
Eu tinha sono, mas ao invés de fechar os olhos, sorria...

segunda-feira, maio 14, 2007

Conto de escada

Na saída do mercado, com o vinho na mão, ela encontrou o vizinho. Cumprimentos formais. Chegaram juntos ao prédio. Ele puxou conversa, ela estranhou e sentiu-se profundamente acanhada quando os dois olhos cor de azeitona a encararam.
(Aquele rapazola estava intimidando a mulher resolvida do alto de seus 41 anos?!) Era inacreditável e embaraçoso, ela mal conseguia responder às triviais perguntas.
Chegaram em frente aos respectivos apartamentos. Ela procurava a chave. Ele, de chave na mão, continuava a falar.
Ela se despediu amarelamente, ele tocou seu ombro, ela, trêmula, logo entrou e trancou a porta.
Para revolta da resolução, o jovem vizinho roubara-lhe o sossego e os pensamentos.

domingo, maio 13, 2007

Combina

De repente eu olhei e vi e reparei: Ele combina com o teto, com o azulejo, com o cômodo, com o cantinho, nem sei explicar, só reparei que combina como eu nunca havia reparado que alguém combinasse tão bem.
E aí, como se não bastasse, depois, também reparei, sem querer, que ele combinava mesmo onde não estava... O triângulo saiu do bolso, estava tudo tão bem, mesmo assim faltava... Faltava a presença que ali me combinava, me convenci a não me importar, me importei. E dancei até o dia clarear.

21 minutos depois

Como não ouvi, não atendi, quando vi, titubeei, mas não retornei, como um grito de libertação que suprimiria o indesejado, como a luz de uma sabia decisão. Dormi.

quarta-feira, maio 09, 2007

A Garôa e o Álcool

Cheguei à Secretaria (que é o boteco onde almoço) já passava das 2 hrs., a feijoada já havia acabado, mesmo assim, consegui a caipirinha para amenizar o frio.
Eu, tomando meu drink discretamente à espera do milanesa. Chegam dois respeitáveis senhores do meu trabalho, enquanto eu pensava em esconder meu copo, os respeitáveis pediram uma vodka e um vinho seco vagabundo.
Curiosamente, todos no boteco, estavam rindo, de bom humor, apesar do frio, da garôa e do vento cortante. Fiz amizade com um senhor de boina, etilicamente feliz, que reforma sofás (muito útil, já que meu sofá está precisando de um trato).
Reparei que o chapeiro bebericava entre uma calabresa e um omelete e pouco depois já estava agradando a garçonete bonitinha (eu já desconfiava da paquera).
Na saída, ainda encontrei o meu gerente do banco sorridente, de copinho na mão, era café, mas estava com cara de quem experimentou a caipirinha...

sexta-feira, maio 04, 2007

Tempo amigo

Há tempos atrás, há uns 12 anos, a música Sobre o Tempo, do Pato Fu, era mote do meu namoro, e o detalhe é que cantávamos Fique comigo, seja legal mas na verdade a música dizia Tempo amigo, seja legal
Hoje, sem tempo, pensei nisso, na verdade, pensei no tempo para o teatro, para a Confraria da Paixão, no tempo de ser tia e brincar, tempo de ler, comer, tempo pra ver desenho e filme, pra ir ao cinema, tempo pra alongar e correr e exercitar, tempo para pensar, pra querer, pra rejeitar, tempo pra ser filha, neta, tempo de família, tempo de ser sincera e de deixar passar, de aprender, de observar e participar, de agradecer, de ir, de voltar atrás, tempo de ser política, de trabalhar, de lidar, de ser boa profissional, de ser até advogada, tempo para os amigos: os de lá, os de cá, dantes, de agora, tempo de pentear e pensar e lavar e dormir e acordar e chorar (pouco tempo) tempo pra escrever e tempo de sorrir (muito tempo) e dançar e cantar e beber e beijar e viajar e bagunçar e arrumar e meditar e amar, tempo de ociar, de nada fazer... Ah como eu preciso desse tempo...
Tempo amigo, seja legal, seja muito meu amigo, porque eu preciso de você! Por favor, seja gentil e se estenda nos momentos bons, conto contigo pela madrugada e sempre. Só seja breve na tristeza e me deixe te acompanhar sempre e com ritmo, pois a parte que você me dá, é toda a minha existência.

quinta-feira, maio 03, 2007

Oh Darling!

Acordei 9:59, meu vizinho cantava junto com o disco, com emoção vazada: Oh Darling... Please believe me!
Já acordei rindo, puxei a cortina azul e vi o céu azulado por trás do prédio amarelo iluminado pelo sol amarelo-avermelhado.
Um dia bonito, ou melhor, lindo! E o vizinho cantante: Oh oh oh... Lá! Lá!! Lá!!!
E eu, que continuo a rir, nem vou ligar meu rádio. Adoro vizinhos animados.
E seguiu o dia com roupa no varal, almoço dançante com o melhor amigo, caminhada sob lua na passarela de pedra, exercício, risada e Forró do Tranquilino na Confraria da Paixão e terminou com poesia e a secretária eletrônica me dizendo exatamente o que eu queria ouvir.
Êta Dia do Trabaio bão!

Sampa, 1º de maio de 2007

domingo, abril 29, 2007

Langada

Pós samba, pré-festa, a vila, na Mariana, me esperava.
Na chegada, meus sentidos já adivinhavam, previam e miravam.
A noite amanheceria clara, eu, nublada, langada.

segunda-feira, abril 23, 2007

A sorrir eu pretendo levar a vida

Para começar bem a semana



O Sol Nascerá
Cartola
Composição: Cartola

A sorrir
Eu pretendo levar a vida
Pois chorando
Eu vi a mocidade
Perdida

Fim da tempestade
O sol nascerá
Fim desta saudade
Hei de ter outro alguém apara amar

A sorrir
Eu pretendo levar a vida
Pois chorando
Eu vi a mocidade
Perdida

Quebra-copos

Eu nada pensava em quebrar, estava largada no sofá, mas um terrível amigo me convenceu, com bons argumentos, a quebrar a ressaca e ir sambar. Domingo, u Ó!
Lá fui eu, inocente, de preto, já animada. Conversa, cerveja e samba, samba, conversa e cerveja. Dancei com o Rodrigo e quem era o Rodrigo? Era o aniversariante, é o que sei.
Na volta para a pista, eu não sabia o nome do belo sambista que sorria e não sabia sambar, mas ele me puxou pra dançar, o copo espatifou no chão. Descobri que ele sabia quebrar e beijar!
Foi aí que eu pensei: Que bom que eu parei de quebrar garrafas e me machucar, muito melhor beijar e deixar que quebrem os copos por mim.

domingo, abril 22, 2007

Coin

Quem não gosta de samba bom sujeito não é, é ruim da cabeça ou doente, eu nasci com o samba, no samba me criei e do danado do samba, nunca me separei
Repetições, talvez, imprecisas, de um dia doido, começado com restos a pagar de Havana e terminado filosoficamente com Ramos e Niemayer na esquina da Iracema.
Dia acarretado de segredo positivo e meu time fazendo papelão no samba que anoitecia nos olhos do sãopaulino inveterado e chorado no balcão.
Coincidências terríveis, incríveis e, sobretudo, cariocas, estupefaram um coração azul desavisado.
Que venham outros: Sambas, cabelos e sobretudo, encontros tão bons, inesperados, planejados pelo acaso, e que o acaso seja bom...
Bom final de semana
E eu, que já queria ser jornalista...

sábado, abril 21, 2007

Santiago

Não era Santiago, era exposição.
Ela de azul, lia.
Ele, de branco, falava com sotaque
Ela se virou, sem acreditar, nem conseguir falar...
Foram interrompidos
pelo silêncio,
pela surpresa,
pelos amigos.
Então, ele falou, mas não foi, ficou...
Por fim, partiu,
sem saber que roubara todos os pensamentos daquela mulher.
Piegasmente destinados se sentiam,
ainda não sabiam,
logo se reencontrariam,
se amariam
se fariam felizes.

sexta-feira, abril 20, 2007

Reticendo

E quando a indiferença instalada já acomodada, fazia ponto, o ponto da quebra.
Eu já estava de saída...
Mas, porém, contudo, todavia, entretanto, o sentido reapareceu e irritou os profusos, confusos, entranhados, pedaços de afeto.
Repeti palavras, como no primário.
Respirei fundo e deixei a água morna cair.
O dia está começando.

entretrechos

eu passaria a vida toda ao lado dessa bunda

Um corpo é primariamente um encontro com outros corpos (David Lapoujade)

Ontem quando garrafa quebrou, ficou claro:
Me faz mal (ponto).
Mas os cacos não mais ferirão minha pele
Deixarei de quebrar a garrafa.

a sorrir
eu pretendo levar
a vida

sexta-feira, abril 13, 2007

Cenas do centro

João e Wellingon
Hoje, quando saí do trabalho, encontrei Wellington sentado no Páteo do Colégio, com João dormindo em seu colo. Pedi para fotografá-los, o dono de João concordou.



Mais tarde, saindo da Caixa Cultural, encontrei novamente a dupla, João carregava na boca sua coleira, Wellington me reconheceu logo, fiquei amiga de João que estava animado e amável, tirei mais algumas fotos.



Nas palavras de Wellington: Este cachorro é muito inteligente só falta falar...


Eu acredito!


João e Wellingon

sexta-feira 13

nublada, lenta, animada, piscada, arrastada, sonora e mutante.

terça-feira, abril 10, 2007

Hoje

em mim,
a alegria está calada.
Talvez, ausente.


No barulho
minha tristeza silenciou
No silêncio
minha alegria calou.

Silêncio

Para que ninguém
possa ver no
fundo de mim
e a minha última
vontade
para isso inventei
o longo, luminoso silêncio


Quanto mais
os vigiava
e ficava
à espera, mais
me convencia
de que
mesmo à falta
de qualquer outra prova,
o silêncio
sistemático
de ambos
constituía
prova suficiente


Hesitamos
em fazer
a pergunta
porque
não queremos ouvir
a resposta
Prosseguimos em silêncio


Em tempos de
silêncio generalizado
conformar-se com
a mudez dos outros
é certamente culpável


Debaixo do silêncio
Eu não sei o que traziam



Exposição
Sob Neblina (Em Segredo)
de
Marilá Dardot
Centro Cultural Banco do Brasil
São Paulo

quarta-feira, abril 04, 2007

Franco Aeeê!

O caminho começou estranho, mas se desenrolou bem, em quente temperatura.
Salão amplo e colorido, cenário montado, biombo e camarim improvisados. Alongamento e dança afro na lona, espelhos pendurados, maquiagem colorida.
O calor aperta, Pindoba recepciona a criançada que toma conta. Sala cheia, música, balões, vozes, gritinhos. Aeeê!
Os músicos entram: Pititico, o maestro, rege a orquestra, Piluco flautista logo conquista os pequenos corações, Biscuila aparece em amarelo por detrás do violoncelo. Começa o concerto. Pausa breve. Dançarinos empolgados: Franjola em cores e animação, tia Alva atrasada, Anjinho enquepado.
Entre sorrisos e barulhos tantos, a palhaçada corre solta no meio da garotada, que se diverte e desconfia do palhaço exibido, vigia tia Alva, se encanta com Piluco, ri de Pindoba, torce por Julieta, é penteada por Anjola e escorrega com Franjola.
Risadas finais, espetáculo findo. Coelhinhos de papel correm pelo palco e adotam os palhaços que desmontam e assistem às piruetas dançantes dos pequenos.
Estrada a vista. Terminada a estada da Palhaçada em Franco da Rocha.
Até a volta.

segunda-feira, março 26, 2007

João e Wellington

A primeira vez que vi Wellington, ele estava atravessando a rua, todo orgulhoso de João, que carregava na boca sua própria cordinha. João é o cachorro de Wellington.
Um dia, João foi atropelado e ficou impossibilitado de andar, então, Wellington enfaixou a pata de João e passou a carregá-lo nas costas.
João e Wellington moram nas ruas do centro de São Paulo, nas proximidades do Páteo do Colégio. Algumas vezes, vi pessoas doando ração para João e ajudando Wellington a comprar remédios para o amigo.
Hoje, na volta do almoço, encontrei Wellington de cabelo cortado e sem João.
João está internado, recuperando-se da cirurgia, uma mulher pagou para colocar os pinos que possibilitarão que João volte a andar sozinho.
Amanhã, João terá alta e Wellington vai buscá-lo. Por isso, Wellington estava contente, exibindo seus poucos dentes, com um cigarro doado na mão, à espera do almoço que ganharia do restaurante da esquina.

imagens

inevitável

Dói quando não se tem mais nada a fazer, senão aceitar.

O alento é que aceitar, antes de fazer tudo o que se pode, corrói.

sexta-feira, março 23, 2007

Ângulo

A pouco, tive a leve impressão de ser uma personagem que chegou atrasada numa peça começada, que não era a minha. Talvez, eu seja a coadjuvante que dá emoção à trama, talvez, eu tenha sentado do lado errado do bonde. Ou talvez, a minha, seja a história paralela.

quarta-feira, março 21, 2007

Dia do Teatro

Hoje, dia 21 de março, é o Dia Nacional do Teatro. A você, minha filha e a todos aqueles que um dia se apaixonaram pela nobre arte do Teatro, um abraço e a esperança de que esta paixão lhe traga toda a felicidade possível.
(Francisco Pedro Alves)

segunda-feira, março 12, 2007

As mãos

Sobre o verde as mãos ansiavam
As mãos pálidas hesitavam sobre o creme
Elas, as mãos, desejavam se misturar
Então, uma amassou o verde, querendo o azul.
As estrelas inexistiam, só haviam as mãos
Não...
Haviam mãos,
Olhos fugidios,
Lábios em movimento e
Mãos próximas
O verde ficou perdido
A sensatez se despediu
Mas, não se tocaram, as mãos
Receosa, uma passou levemente pelo castanho
Dos cabelos.
Não houve amarelo, nem vermelho.
A noite seguiu quente em verde pranteado, azul distante
E sono embriagado.

quarta-feira, março 07, 2007

A Farsa do Boi Surubão e Hoje tem Palhaçada!

Confraria da Paixão
Teatro Popular do Brasil
apresenta:

Hoje tem Palhaçada!

Gênero: teatro infantil
Recomendação: a partir de 2 anos

Hoje tem palhaçada! é um espetáculo resultante de um pesquisa sobre o palhaço popular, que a Companhia vem realizando há três anos.
O espetáculo tem início com uma animação de bonecos e objetos, a título de aquecimento da platéia.
Começa propriamente com seis palhaços que pretendem realizar um grande concerto musical. No entanto, são interrompidos pelo Palhaço Diretor, que julga de péssima qualidade a execução deles.
A partir daí o público assiste a dezoito cenas, onde os palhaços dão rédeas soltas às suas imaginações, mostrando engraçadas cenas de rara beleza e lirismo.

Um espetáculo da Confraria da Paixão, com a direção de Luiz de Assis Monteiro. No elenco: Cax Nofre, Giancarlo Zago, Lê Fazzio, Lucas Martins, Luiz de Assis Monteiro, Sandra Britto e Vagner Anjinho.

Teatro Macunaíma. Até 1 de abril. Sábados e domingos, 16:00 horas. R$ 12.


A farsa do Boi Surubão
Gênero: farsa popular
Recomendação: a partir de 10 anos

A farsa do boi Surubão, de Luiz de Assis Monteiro. Baseado na literatura de cordel, o espetáculo conta a trajetória de Tranquilino Soares, um poeta popular que, tendo perdido seu boi, sai pelo mundo vendendo seus folhetos de cordel para ganhar a vida. Em suas andanças, vai contando sua história, revelando um rico panorama da cultura popular brasileira.
Um espetáculo da Confraria da Paixão, com a direção de Luiz de Assis Monteiro.
No elenco: Cátia de Oliveira, Eduardo Poyares, Giancarlo Zago, Leda Abade, Lê Fazzio, Lucas Martins, Luiz de Assis Monteiro, Sandra Britto e Vagner Anjinho.

Teatro Macunaíma. Até 1 de abril. Sábados e domingos, 20:00 horas. R$ 12.


Teatro Macunaíma

Rua Fortaleza, 68 - Bela Vista - São Paulo - SP

Fone: 3119.0121

Informações antecipadas pelo tel.3667-3497

terça-feira, março 06, 2007

O Homem do Machucado

Todos os dias, a caminho do trabalho, sentado no degrau do bar da esquina, eu vejo o Homem do Machucado.
O Homem do Machucado aparenta uns 60 anos, mas deve ter menos, olhos claros, cabelos brancos só na parte de trás da cabeça, que quase sempre está machucada do lado direito (que de tanta pancada tem um ponto grande afundado).
A cabeça, não raramente, está sangrando, às vezes o rosto está machucado, às vezes o braço enfaixado... De tanto vê-lo estropiado, me acostumei... Anos e anos, até que recentemente o homem machucado começou a me intrigar... Seria ele um bêbado que sempre cai?
Pesquisei junto às outras figuras do trabalho, o Patolino me disse que vê o homem do machucado desse mesmo jeito há 20 anos, que ele não bebe, é agiota, por isso, toda manhã está no caminho do tribunal, empresta dinheiro aos funcionários daqui e ali é seu ponto estratégico de negócios. Disseram-me que ele se machuca porque cai constantemente por causa da epilepsia, os policiais estão acostumados a levantá-lo, disseram também que o Homem do Machucado é o Neno.
Ninguém soube me dizer porque ele não toma remédios para controlar os ataques, nem porque ele age como se os machucados fossem parte dele e só.
Acho que o ser humano se acostuma a tudo até a cair e machucar-se diariamente...
Hoje senti falta do Homem do Machucado, não o vi de manhã. Imaginei se a última queda fora fatal.
Na hora do almoço não passei pelo ponto do Homem do Machucado, mas me garantiram que ele estava lá, no mesmo lugar, só que inteiro, sem nenhum novo machucado.

segunda-feira, março 05, 2007

Seu Boiadeiro por aqui choveu...

Na verdade não choveu, está um sol brilhante, pós uma noite linda de lua cheia na nossa Babilônia Paulistana.
Mas acordei com essa música na cabeça, a cabeça longe, o coração também.
Eu e Terrível viemos no metrô cantarolando, cheios de saudade gostosa e doída no peito, a cabeça dele nunca volta de lá, a minha está ficando cada vez mais lá.
Não que aqui não esteja bom, está ótimo, reestreamos! Os espetáculos estão melhores e ontem foi aniversário de 6 anos da Confraria da Paixão, comemoramos em família de confrades.
Tia Alva continua uma palhaça apaixonada (com mais mobilidade, porém) e Cax continua cheia de paixão que explode em outra direção.
Olho para a lua gorda e linda, enxergo as estrelas, mesmo encobertas e a pontinha do coração volta a torcer.
Durmo e acordo feliz... Choveu que abarrotou, foi tanta água que meu boi nadou!
Desço na Sé, olho para as folhas da árvore e sigo alienada, depois do farol, como sempre, vejo o homem do machucado, hoje ele está menos machucado, acho que às segundas, em geral, ele está mais inteiro.
Cheguei ao mar de papel, que Caloooorrrr!!!!!

quinta-feira, março 01, 2007

O Meu Amigo Pintor

Por um acaso, achei na casa do meu amigo da Ilha, o livro O Meu Amigo Pintor, de Lygia Bojunga Nunes, abri aleatoriamente na página 36 e li:

(...) Olha. Olha! Olha!! Não dá pra ver? Não dá pra sentir que a minha pintura não tem vida? _ E aí ele jogou o pincel na mesa com um jeito meio, sei lá, um jeito desesperado, que, francamente, eu nunca tinha visto ele ter.

Eu fico lembrando dessa cena, e fico pensando uma coisa: será que um artista pode amar tanto o trabalho dele que... deixa eu ver como eu explico isso... pode amar tanto o trabalho dele que, se ele acha que o trabalho não tem vida, ele também não quer mais ter?


Fiquei imediatamente interessada e peguei o livro emprestado, é uma literatura infanto-juvenil, que trata da amizade entre um menino de 9 anos (que narra a história) e um artista plástico. O livro é tão bonito, remete a imagens comparando cores a sentimentos, achei tão interessante, tão tocante, que eu pensei: Como eu gostaria de ter escrito algo assim!
Foi a primeira vez que li, mas quero ler mais e saber mais sobre Lygia Bojunga Nunes que, no mínimo, é uma escritora de rara sensibilidade.

quarta-feira, fevereiro 28, 2007

Wonderful World

Um dia da adolescência, uma dia de aniversário em que eu fazia 16 ou 17 anos, eu estava na casa da Rua 13, a família pronta para cear e eu ansiosa por gostar do natal, do meu aniversário.
Coloquei a música que me tocava para tocar, era Wonderful World, de Louis Armstrong, daí eu tomei coragem e decidi que eu queria ouvir a voz do ser amado e liguei para o William, não tive coragem de falar nada, só ouvi a voz dele, o engraçado é que não lembro o que ele disse, não lembro se foi ele que atendeu ou se eu mandei chamar, só lembro que era meu aniversário, que eu ouvi a voz dele e por isso dormi feliz.
Lembrei de tudo isso porque hoje, o Giba, meu colega de trabalho, me apareceu com um CD-mofo que tinha essa música, eu ouvi e lembrei do William, do telefonema, daquele passado.
A Rosana lembrou do cunhado dela que adorava essa música. O cunhado morreu, por isso, a mãe dela sempre chora quando ouve Wonderful World e eu quase chorei por me lembrar de um dia, ou melhor, de uma noite inocente e feliz que eu tinha deletado, mas recuperei.

terça-feira, fevereiro 27, 2007

Saudade

Dói diferente e corrói a pontinha do coração de forma que espreme os olhos para deixá-los quase alagados.
A barriga treme porque o corpo quer ir e tem que ficar, impotente.
A concentração é vencida por lembranças e a vontade...
É se deixar inundar...

segunda-feira, fevereiro 26, 2007

Luzes


Sete andares acima do meu, povoada de pensamentos, me perco entre inúmeras luzes.
As estrelas poucas na linda noite do céu cinzento me dão vontade de Marujá.
O planetário deve estar lá, pleno.
O maluco na varanda, sonzinho ao fundo, a natureza gritando.
E eu aqui, cinza e perdida, cheia de vermelho complicado no coração.

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

Batido

O assunto é batido e chocante, mas só hoje me dei conta... Na verdade, minha vontade de ser feliz, diversas vezes me aliena da realidade crua, triste e pesada, (palavras que sempre tento evitar) mas hoje, fui instigada a pensar no menino que morreu no Rio arrastado pelo cinto de segurança e procurei notícias a respeito.
É triste e cruel demais, como tantos episódios que já ouvimos por aí, como daquela menina da colégio São Luiz.
Daí eu penso que não sei o que pensar, ou eu acredito que convivemos com vários monstros, ou eu culpo a sociedade, ou eu acredito em carmas, em espiritismo, que me explicaria que Liana e o João Hélio fizeram atrocidades em vidas passadas.
O problema é que por mais que eu tente, no fundo sou uma cética convicta que tenta acreditar.
Meus pensamentos me dizem que há pessoas muito más, capazes de coisas horrorosas... Para compensar, eu nunca acredito que essas coisas acontecerão comigo ou com minha família, será instinto de sobrevivência?! Eu procuro fazer yoga, fazer o bem, ser legal e espero que o mundo me retribua. Espero ter sorte? Talvez, talvez não, espero!
Não faço quase nada para o mundo ser melhor, mas espero que ele seja... Acho que eu só quero ser feliz...
Mas hoje eu pensei, não tenho filhos e nem acho que um dia estarei apta a ser mãe, mas sou tia e meu instinto maternal se concentra em Iaguinho e se alguém fizesse com Iaguinho algo parecido com o que fizeram com o menino de 6 anos, João Hélio, creio que eu quereria matar os caras, mas quereria de verdade.
A tristeza aumenta, ao vermos que só quando morre gente muito inocente e que o assunto vai pra mídia é que a indignação aparece em forma de medo.

segunda-feira, janeiro 29, 2007

Neverland

A terra do nunca parecia um filme. Em 30 metros sumia-se da vista, como se passássemos para outra dimensão, os trens antigos, o pó a capela e o museu em meio a gerânios coloridos e caminhos de grama me faziam crer que era um sonho, que era Neverland! Eu me sentia a Sininho sobrevoando a grande roda e a jovem personagem de Pinter andando sobre os trilhos.
O homem de macacão sujo, alimentando a locomotiva com grandes fachos de lenha, me deu a impressão de que eu encontraria minha bisavó, elegantemente trajada em cinza, contrastante aos seus olhos azuis, usando um belo chapéu, prestes a tomar o trem para o Rio.
O cachorro da estação dormia, a névoa combinava comigo, ainda combina. Eu, amante do sol, me encantei com a neblina embriagante e brinquei como uma criança girando meu Peterpanzinho e vagando por vagões e ruas ladrilhadas em paralelepípedos donde, às vezes, do nada, do branco, surgiam belas crianças correndo.
Os galpões de madeira e planta e as casas antigas e conservadas pareciam inabitadas, menos a de Lessie, das Lessies.
Grandes folhas, janelas azuis e um posto de saúde que é centro de informações, ficavam próximos ao Bar da Zilda, percebi que era 2007, Peterpanzinho continuava correndo, os casais multicolores se beijavam, o garçom sorria exalando simpatia, mesmo sem peixe.
Atravessamos a ponte, Clarinha estava longe e enlutada, eu, enevoada.
Na entrada da parte alta chovia, deixamos para trás a Pousada dos Artistas e o Mercadinho de Paranapiacaba. Peterpanzinho ia encapuzado e sorridente do colo do pai, a mãe e a tia subiam em ritmo menor. O ônibus estava a nossa espera.
Acordei no trem.
À noite, eu já estava ouvindo som para seres verdes.

Fotos em:
http://br.pg.photos.yahoo.com/ph/claudiacax/album?.dir=/9bd1scd

Blá

Santa Maldita sensatez que me salva e condena
em porções.

quarta-feira, janeiro 10, 2007

Imagem

O menino feliz olhava para o mar.
O boto acenava.
O sol abrandava.
Eu fotografava.

Calor Intenso


Como é difícil voltar, como os ânimos são diferentes, as vozes aqui são mais sufocadas, todos estão oprimidos e não há nada que eu faça, mesmo o que me dá prazer, que não me faça lembrar, como é bom estar na Ilha da Cardoso.
Foram apenas 12 dias, mas 12 dias tão intensos, que valeram por muito mais.
Queridíssimo Lion-Terrível, que me avisou deste Paraíso e consolidou de vez nossa amizade.
Desde o barco, o contato com o mar, montar a barraca, gritar “Calor!” cada vez que alguém colocava o pé no Camping.
No começo, tanta espontaneidade, tanta natureza e tanta loucura me atordoaram, me deixaram sem saber o que fazer, eu nem sabia o que estava acontecendo comigo, me perdia no mar escuro e no azul do vermelho, senti em dias coisas que eu evitava há muito tempo, me derreti, sofri, me diverti, gritei e ardi e só estava no 3º dia, eu acho, porque lá, o tempo não importa.
Sempre me perdendo e me achando fui me ligando cada vez mais à Ilha, me encantando com os passarinhos, me superando nas pedras e observando o calango vizinho, ouvindo o som do mangue e do mar, dançando sob o sol e cantando a beira-mar, estendida em cangas coloridas, observando crianças encantadas ou admirando os botos simpáticos.
Ah, tanta coisa aconteceu, tanta gente apareceu, que eu nem sei como expressar tudo, cada um poderia ser um personagem para ser descrito em diversas páginas.
E os Calor!!!! pescadores engraçados e animados, que me nomearam Juditinha do Mar, dividiram o nhoque, o sushi, o macarrão e muitos causos, era impossível parar de rir, Pedro de Lara era o mais animado.
Quanta gente, que alegria, que doideira.
A chuva e a cabeça na areia, os sons, a dança, o triângulo e o por do sol que me fez chorar. A indecisão, o banho noturno de mar, o maracatu, o camarão e o ciúme, a cerveja, o Bar do Beto com a voz de Kléber Albuquerque, os violões e a ciranda
O chapéu de palha que apareceu de repente trazendo mais gente, banho de estrelas, despedidas tranqüilas.
Uma paixão azul e vermelha permeava o tempo todo, se consolidando e se adaptando e andando.
Dividir a casa, viajar no amigo e voltar atrás.
E o vizinho da frente que fazia chá, arroz carreteiro, dormia na rede e tomava doce, uma figura ímpar.
O vizinho doideira, de olhos multicolores, que passou comigo o “Perdidos no Reveillon”, mas com Calor! tudo se achava.
As amigas novas e doidas que riam sem parar e filtravam sonhos. E por falar em sonhos, quantos sonhos loucos e que encontro bom ver Onofre de vermelho.
O vizinho cabeludo ficou doente, sarou e cortou lenha.
A energia era muita, era boa, atordoante.
Na calmaria de uma cerveja, quase uma explosão valdetiana, para a balada ir até nós, com amostra de Cataia, de sons clássicos, sol, pescaria, tcherinas e capetas-mustá.
E quando eu quase ia embora, resolvi ficar e foi ainda melhor, depois de uma tarde febril e uma corrida alucinante e molhada, a melhor balada aconteceria, depois de abastecer os músicos e dançar muito, eu descobri o melhor gosto da Ilha, envolta numa energia indescritível passei a noite nos braços do moço de fala mansa e olhos tranqüilos que me cobriu de beijos, me envolveu na capa de chuva e me pediu pra ficar... Fui embora antes de me derreter de vez.
Voltei cantando dividida entre o gosto dos olhos tranqüilos e os azuis vermelhos e complicados
A passagem por Cananéia, regada a Maria-Mole amenizou o choque da volta, quando o telefone voltou a pegar, vozes cansadas, sem energia, aumentaram ainda mais minha vontade de voltar para a Ilha, mas os amigos, as boas lembranças me deram alento para voltar à realidade e cá estou.

Fotos em:
http://br.pg.photos.yahoo.com/ph/claudiacax/album?.dir=/e342scd&.src=ph&.tok=ph6miPGBvNlShG

Carta

Meu querido
Não sei se você chegará a ler esta carta porque não sei como envia-la e não sei quando nos veremos, o que para mim é muito triste neste momento.
Tudo na sua Ilha é intenso e eu, que sempre tentei ser sensata, fiquei inicialmente perdida, confusa, atordoada e terminei apaixonada com tanta energia, tanta loucura, tanto som, tanta poesia e Cataia no ar.
Os 12 dias que passei na Ilha, valeram emocionalmente como meses e meses, muita coisa aconteceu dentro de mim, muita água rolou e eu achei que meu balanço final seria confusão, mas não, o final da minha passagem na sua Ilha foi o melhor possível, porque foi com você.
Foi tão difícil sair da Ilha que até agora me pergunto se eu não deveria estar aí, meu lado responsável e minha paixão desgastada pelo teatro venceram, mas até agora ainda sinto seu gosto, seu cheiro o tempo todo e eles são um alento nessa volta à minha concreta realidade paulistana.
No Lagamar, em Cananéia, no ônibus, em casa (enquanto eu lavava a barraca ouvindo Packaw para fingir que ainda não estava aqui), no supermercado, na farmácia, na casa do meu irmão, durante a reunião da Confraria e por todas as 3 horas de ensaio eu só pensava no seu beijo, na sua tranqüilidade e nos seus lábios me dizendo: Fica menina.
Como eu queria estar aí... Como estará a Ilha, como estará você, em que estará pensando? Está vendo a chuva cair? Terá algum pensamento pra mim?
Seu mundo é tão diferente do meu e tão bom... Até quando a lembrança do seu cheiro me dará alento para essa loucura na qual vivo? Será que vai dar para eu voltar logo para esse paraíso? E quando eu voltar, será que seus olhos tranqüilos ainda serão meus ou será já teremos nos perdido em outros olhos?
Com você partilhei meu sonho e minha alma, você me fez considerar coisas que não são plausíveis no meu mundo, me despertou sentimentos que eu evitava.
Voltei saudosa e mudada.
Obrigada
Infinitos beijos e abraços
Kaquis

São Paulo, 09 de janeiro de 2007.

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