segunda-feira, maio 15, 2006

Segunda-Pijama



Acordei de má vontade, como às segundas, fui trabalhar.
De repente me dei conta do pânico geral, todo mundo preocupado, exacerbado, meu chefe tentava , como sempre, ver tudo da melhor maneira, que no caso era a menos ruim, eu via tudo de longe, parecia um filme, eu ainda estava anestesiada pelo fim de semana.
Resolvi almoçar e desisti de ir à Marisa (de mulher pra mulher), então me dei conta que eu também estava com medo. Voltei para o trabalho pensando em Angola, em guerra civil... Tudo era tão distante e tão próximo, tudo ainda me parece filme.
Todos os meus estão bem, meu sobrinho continua brincando sem saber de nada ... Ponho roupa na máquina me sirvo de vinho e vejo Lost, Lost Retrospectiva, ainda me sinto estranha, anestesiada, sem vontade de fazer nada, a não ser, me anestesiar ainda mais.

domingo, maio 14, 2006

Tudo quase igual, mas diferente



Quando eu cheguei, minha mãe estava me esperando como quase sempre, mas quando eu abri o portão o Fred não veio me encontrar, a lua estava cheia e alta e eu a observei por muito tempo enquanto escondia minhas lágrimas atrasadas,
Comidinha boa, caminha quente.
Meu pai estava em casa cedo e almoçamos todos juntos um franguinho caipira.
Até ensaiei. Filme na madrugada igual.
Telefone tocando na madrugada pode ter dois significados: Amigo bêbado na balada ou notícia triste, não tinha nenhum amigo bêbado. Minha mãe disse que a notícia era boa porque ele estava sofrendo muito, embora ela tivesse razão, notícia de morte nunca foi boa para mim, quem sabe quando o Bush morrer, mas não era o caso.
Eu tentei dormir, mas me lembrei dele o tempo todo, tínhamos a mesma idade.
Ailton nasceu 13 dias antes de mim, na Bahia, numa cidadela perto de Ilhéus, adulto, mudou-se para São Paulo, como eu. Lutava karatê, como eu vi nas fotos, mas quando eu o conheci, ele já não tinha um braço, trabalhava como voluntário no CVV, atendendo telefonemas de pessoas desesperadas. Pelas previsões médicas, eu nem o conheceria, mas ele era tão vivo, alegre, disposto que, no fundo eu não acreditava que ele morreria de verdade.
Em 1988, eu tinha prometido nunca mais ir à velórios, mas no sábado, mudei de idéia, não sei porque, tive que ir. Não consegui ficar, era tudo tão estranho e tão natural, olhei para o céu de novo, estava azul, uma pipa rebolava colorida e eu pensei seria para ele que ela dançava.
Ritual triste, sol forte, palavras inúteis e caminhadas necessárias, passeando pelo cemitério encontrei fotos de parentes próximos e distantes e apreciei obras de arte, todo mundo agindo tão naturalmente, tudo era natural, reparei no zelador do cemitério, no cara que fechava o tumulo e até no rapaz que fumava deitado na lápide ao lado da gordinha.
Sensação estranha aquela, me lembrei de quando eu era criança e ia ao cemitério com o tio Luiz lavar túmulos e passear, depois lembrei-me do porque eu não gostava mais de ir a cemitérios. A escultura em mármore carrara no tumulo do meu bisavô, me atordou.
Segui, saí.
À noite tomávamos cerveja e comíamos torresmo, quando a família do Ailton chegou, o irmão dele parecia tanto com ele que senti ia chorar de novo, mas o céu estava longe e resolvi cozinhar o virado, haviam gatos no caminho, vários gatos fofos.
No domingo de dia das mães com a comida deliciosa da tia Rosa, pertinho de mãinha e vóinha, com o tio e o primo contando dos barracos e das proezas inconseqüentes da infância, senti que muita coisa ainda era igual.
Saí mais cedo, mas dormi quase o tempo todo, como de costume. Já em casa, sinto que nada é igual, mas sempre será semelhante.

segunda-feira, maio 08, 2006

O Perfume (não o de Süskind)


Quando eu tinha 16 anos e cursava o 2º Colegial no Colégio Soares de Oliveira, em 1992, a pedido da Profª Lucília, eu li “O Perfume”, de Patrick Süskind, foi uma boa experiência, li o livro de um um dia para o outro, de última hora, mas fiquei feliz por conseguir ler tão rápido e gostei do livro, sempre me lembro de partes inteiras dele, o que acontece somente com mais um ou dois.
Na semana passada, amargamente lembrei-me deste livro, mas não foi nada bom.
Com o intuito de aprimorar meus conhecimentos artísticos, inscrevi-me numa oficina de teatro no espaço Cultural Mazzaropi. Feliz por ter conseguido uma disputada vaga, lá fui eu animadamente rumo a zona leste, enfrentando ônibus elétrico lotado, atrasado e posteriormente quebrado. Mesmo assim cheguei a tempo.
Todo mundo feliz, se cumprimentando, aquela conhecida coisa de início de um curso, de novas amizades, de um processo conjunto. Até aí tudo tranqüilo. Pouco tempo depois eu já estava achando aquele negócio de “ Você sabe abraçar? Abrace de verdade, tudo sem maldade...” meio estranho, mesmo porque, o rapaz ao meu lado, assumidamente gay, torceu o nariz para me abraçar, à procura de um menino bonito.
À essa altura eu já estava pensando: Por que eu me meti em uma terapia para problemáticos sexuais? Mas, em seguida, encontrei algumas pessoas mais inocentes e mais éticas e me confortei: "É apenas uma bichinha mal resolvida em meio a atores que querem aprender."
Uns quatro abraços depois, em outro exercício, enxergo 90% do grupo sofrendo de canastrice aguda e o diretor do curso me ignorando, não me chamando para nenhum exercício. Ok! Talvez seja necessário uma experiência em que eu tenha que provar meu possível talento para uma pessoa que não me conhece e nem simpatiza comigo. Até aí eu estava achando tudo uma experiência, talvez desnecessária, mas uma experiência, mas eis que ficamos 30 pessoas deitadas no chão se amontoando, a pedido do diretor e no meu apertado núcleo alguém libera um gás mal-cheiroso.
Situação constrangedora, daquela que todos fingem que não ocorreu, primeira etapa do perfume,
Em seguida fui designada para fazer um exercício de confiança e proximidade com uma pessoa que não tomava banho há, no mínimo, uns três dias, o cheiro era tão horrível e tão forte que me dava náuseas, eu tive que me segurar para não vomitar várias vezes e eu juro que nem tenho olfato apurado, mas a coisa estava num nível, que mesmo agora quando eu lembro... É minha pior memória olfativa, seria cômico, se não fosse trágico. Tentei ver o lado bom: Uma memória emotivo-olfativa traumatizante que pode me ajudar no processo Stanislavski, um melhor desenvolvimento do controle do meu estomago, um tópico no blog....
Mas, na verdade, eu penso muito mais: Por que tinha que ser comigo?
Só acontece comigo? Cair numa oficina de terapia do abraço com um porcão?
(Que me desculpem os porcos)

Músculos