segunda-feira, janeiro 29, 2007

Neverland

A terra do nunca parecia um filme. Em 30 metros sumia-se da vista, como se passássemos para outra dimensão, os trens antigos, o pó a capela e o museu em meio a gerânios coloridos e caminhos de grama me faziam crer que era um sonho, que era Neverland! Eu me sentia a Sininho sobrevoando a grande roda e a jovem personagem de Pinter andando sobre os trilhos.
O homem de macacão sujo, alimentando a locomotiva com grandes fachos de lenha, me deu a impressão de que eu encontraria minha bisavó, elegantemente trajada em cinza, contrastante aos seus olhos azuis, usando um belo chapéu, prestes a tomar o trem para o Rio.
O cachorro da estação dormia, a névoa combinava comigo, ainda combina. Eu, amante do sol, me encantei com a neblina embriagante e brinquei como uma criança girando meu Peterpanzinho e vagando por vagões e ruas ladrilhadas em paralelepípedos donde, às vezes, do nada, do branco, surgiam belas crianças correndo.
Os galpões de madeira e planta e as casas antigas e conservadas pareciam inabitadas, menos a de Lessie, das Lessies.
Grandes folhas, janelas azuis e um posto de saúde que é centro de informações, ficavam próximos ao Bar da Zilda, percebi que era 2007, Peterpanzinho continuava correndo, os casais multicolores se beijavam, o garçom sorria exalando simpatia, mesmo sem peixe.
Atravessamos a ponte, Clarinha estava longe e enlutada, eu, enevoada.
Na entrada da parte alta chovia, deixamos para trás a Pousada dos Artistas e o Mercadinho de Paranapiacaba. Peterpanzinho ia encapuzado e sorridente do colo do pai, a mãe e a tia subiam em ritmo menor. O ônibus estava a nossa espera.
Acordei no trem.
À noite, eu já estava ouvindo som para seres verdes.

Fotos em:
http://br.pg.photos.yahoo.com/ph/claudiacax/album?.dir=/9bd1scd

Blá

Santa Maldita sensatez que me salva e condena
em porções.

quarta-feira, janeiro 10, 2007

Imagem

O menino feliz olhava para o mar.
O boto acenava.
O sol abrandava.
Eu fotografava.

Calor Intenso


Como é difícil voltar, como os ânimos são diferentes, as vozes aqui são mais sufocadas, todos estão oprimidos e não há nada que eu faça, mesmo o que me dá prazer, que não me faça lembrar, como é bom estar na Ilha da Cardoso.
Foram apenas 12 dias, mas 12 dias tão intensos, que valeram por muito mais.
Queridíssimo Lion-Terrível, que me avisou deste Paraíso e consolidou de vez nossa amizade.
Desde o barco, o contato com o mar, montar a barraca, gritar “Calor!” cada vez que alguém colocava o pé no Camping.
No começo, tanta espontaneidade, tanta natureza e tanta loucura me atordoaram, me deixaram sem saber o que fazer, eu nem sabia o que estava acontecendo comigo, me perdia no mar escuro e no azul do vermelho, senti em dias coisas que eu evitava há muito tempo, me derreti, sofri, me diverti, gritei e ardi e só estava no 3º dia, eu acho, porque lá, o tempo não importa.
Sempre me perdendo e me achando fui me ligando cada vez mais à Ilha, me encantando com os passarinhos, me superando nas pedras e observando o calango vizinho, ouvindo o som do mangue e do mar, dançando sob o sol e cantando a beira-mar, estendida em cangas coloridas, observando crianças encantadas ou admirando os botos simpáticos.
Ah, tanta coisa aconteceu, tanta gente apareceu, que eu nem sei como expressar tudo, cada um poderia ser um personagem para ser descrito em diversas páginas.
E os Calor!!!! pescadores engraçados e animados, que me nomearam Juditinha do Mar, dividiram o nhoque, o sushi, o macarrão e muitos causos, era impossível parar de rir, Pedro de Lara era o mais animado.
Quanta gente, que alegria, que doideira.
A chuva e a cabeça na areia, os sons, a dança, o triângulo e o por do sol que me fez chorar. A indecisão, o banho noturno de mar, o maracatu, o camarão e o ciúme, a cerveja, o Bar do Beto com a voz de Kléber Albuquerque, os violões e a ciranda
O chapéu de palha que apareceu de repente trazendo mais gente, banho de estrelas, despedidas tranqüilas.
Uma paixão azul e vermelha permeava o tempo todo, se consolidando e se adaptando e andando.
Dividir a casa, viajar no amigo e voltar atrás.
E o vizinho da frente que fazia chá, arroz carreteiro, dormia na rede e tomava doce, uma figura ímpar.
O vizinho doideira, de olhos multicolores, que passou comigo o “Perdidos no Reveillon”, mas com Calor! tudo se achava.
As amigas novas e doidas que riam sem parar e filtravam sonhos. E por falar em sonhos, quantos sonhos loucos e que encontro bom ver Onofre de vermelho.
O vizinho cabeludo ficou doente, sarou e cortou lenha.
A energia era muita, era boa, atordoante.
Na calmaria de uma cerveja, quase uma explosão valdetiana, para a balada ir até nós, com amostra de Cataia, de sons clássicos, sol, pescaria, tcherinas e capetas-mustá.
E quando eu quase ia embora, resolvi ficar e foi ainda melhor, depois de uma tarde febril e uma corrida alucinante e molhada, a melhor balada aconteceria, depois de abastecer os músicos e dançar muito, eu descobri o melhor gosto da Ilha, envolta numa energia indescritível passei a noite nos braços do moço de fala mansa e olhos tranqüilos que me cobriu de beijos, me envolveu na capa de chuva e me pediu pra ficar... Fui embora antes de me derreter de vez.
Voltei cantando dividida entre o gosto dos olhos tranqüilos e os azuis vermelhos e complicados
A passagem por Cananéia, regada a Maria-Mole amenizou o choque da volta, quando o telefone voltou a pegar, vozes cansadas, sem energia, aumentaram ainda mais minha vontade de voltar para a Ilha, mas os amigos, as boas lembranças me deram alento para voltar à realidade e cá estou.

Fotos em:
http://br.pg.photos.yahoo.com/ph/claudiacax/album?.dir=/e342scd&.src=ph&.tok=ph6miPGBvNlShG

Carta

Meu querido
Não sei se você chegará a ler esta carta porque não sei como envia-la e não sei quando nos veremos, o que para mim é muito triste neste momento.
Tudo na sua Ilha é intenso e eu, que sempre tentei ser sensata, fiquei inicialmente perdida, confusa, atordoada e terminei apaixonada com tanta energia, tanta loucura, tanto som, tanta poesia e Cataia no ar.
Os 12 dias que passei na Ilha, valeram emocionalmente como meses e meses, muita coisa aconteceu dentro de mim, muita água rolou e eu achei que meu balanço final seria confusão, mas não, o final da minha passagem na sua Ilha foi o melhor possível, porque foi com você.
Foi tão difícil sair da Ilha que até agora me pergunto se eu não deveria estar aí, meu lado responsável e minha paixão desgastada pelo teatro venceram, mas até agora ainda sinto seu gosto, seu cheiro o tempo todo e eles são um alento nessa volta à minha concreta realidade paulistana.
No Lagamar, em Cananéia, no ônibus, em casa (enquanto eu lavava a barraca ouvindo Packaw para fingir que ainda não estava aqui), no supermercado, na farmácia, na casa do meu irmão, durante a reunião da Confraria e por todas as 3 horas de ensaio eu só pensava no seu beijo, na sua tranqüilidade e nos seus lábios me dizendo: Fica menina.
Como eu queria estar aí... Como estará a Ilha, como estará você, em que estará pensando? Está vendo a chuva cair? Terá algum pensamento pra mim?
Seu mundo é tão diferente do meu e tão bom... Até quando a lembrança do seu cheiro me dará alento para essa loucura na qual vivo? Será que vai dar para eu voltar logo para esse paraíso? E quando eu voltar, será que seus olhos tranqüilos ainda serão meus ou será já teremos nos perdido em outros olhos?
Com você partilhei meu sonho e minha alma, você me fez considerar coisas que não são plausíveis no meu mundo, me despertou sentimentos que eu evitava.
Voltei saudosa e mudada.
Obrigada
Infinitos beijos e abraços
Kaquis

São Paulo, 09 de janeiro de 2007.

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