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- Pode seguir em frente, Maria Maria é uber novata, foi me buscar no samba, numa rua residencial, estreita e sinuosa, Maria já chegou meio assustada, quando me viu se tranquilizou um pouco, mas estava um tanto desconcertada e quase errou o caminho na reta final, daí que eu precisava sair da minha nuvem mental e direcionar Maria que nem imaginava que enquanto eu a guiava, viajava na morte, digo, na vida que segue a morte. Chegamos ao meu prédio, eu desci e Maria seguiu. Eu chorei, almocei, tomei um mojito, conheci a Margô, uma bulldog que gosta de samba, revi a Karen, cantei o samba da Vaivai... A vida seguia, ainda que Marcus tivesse morrido antes da hora do almoço. “... a esposa disse que ele estava jogando bola e após a partida se sentiu mal e teve um infarto. Foi socorrido, mas não conseguiu se recuperar.” Recebi a mensagem às 14:06h. Às 22:41h eu estava no carro da Maria. O William me mandou a mensagem, William foi meu professor de natação, Marcus também foi meu professor de nataçã...

Não

Desculpe-me, Mas não posso mais te ler tuas palavras me leem tuas linhas me desalinham, teus versos me desconcertam e me desconsertam Me iludo Não mudo Sussurro  A voz abafada O peito embalado O juízo desmoronado

Bananas ou bumerangues

A meia colorida destoa do terno cinza. A camisa é branca, vejo a gola. Os sapatos são pretos, mas as meias são vermelhas com bananas ou bumerangues. O cara caminha na minha frente, a meia dele, vermelha, me distrai. Por aquele tempo antes que ele atravesse a rua, paro de dizer mentalmente: Que merda, que merda, cansada de ser a mulher luto, que merda. Depois da meia, penso que luto é ruim, é uma merda e há lutos piores, sempre existe o pior. Eu sempre detestei o conformismo pelo pior, mas hoje... Hoje é o jeito. O jeito é pensar no bom que se tem, no mais ruim que outros têm e seguir caminhando sob o sol atrás de meias de bananas ou bumerangues. SP, 13 de julho de 2021.

Pedaço

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  Tem um pedaço de céu bem azul entre as nuvens de algodão doce que vejo entre as telas da janela. Hoje meu pai faria 70 anos, mas ele não ligava pra datas comemorativas. O dia amanheceu com cara de nublado, mas logo o sol tomou seu trono. Hoje meu pai faria 70 anos. Pode ser que chova mais tarde. Eu corri mais, eu caminhei mais. Meu pai não ligava pra datas. Quando passo por uma árvore gosto de olhar pra cima e ver o céu entre as folhas. Hoje tirei foto de um cacto e meu pai faria 70 anos. O dia está colorido e vazio. Mas meu pai não ligava para datas comemorativas. O pedaço azul diminui mais e mais. Minha cortina tem nuvens. Hoje meu pai faria 70 anos. Chove.

Alfabeto

 Teus As Cheios de Meios Eu em teus Olhos de foto Tua voz aqui Longe Teu toque Imaginado Desenhado Teus As Desapercebidos De meus C Nãos Vestem-se De não.

Abraços

Os laços de amanhã Existirão em abraços? Presente crasso que sufoca a esperança em vírus, máscaras e desigualdades O futuro que eu imaginava antigamente não era este presente O futuro deveria ser melhor que o passado Um futuro mais empático e esclarecido para meu filho para todos Agora O futuro que eu imaginaria Eu não consigo mais imaginar Mas ele virá É o que espero E esperar já é uma vitória Da esperança. (escrito para a página Convide Palavras. Tema: O futuro não é mais como era antigamente - Legião Urbana)

Sintoma

Tristeza desperta o egoísmo Maniqueísmo simples Para quem tem opções Só quem tem plural Pode escolher por gosto: Bom ou Ruim O moço movido A desgosto A doença A descrença Tem a vista embaçada da desigualdade Normalidade na sociedade Perda Morte Racismo é só sintoma Hematoma que só cresce Enrijece A máscara não cobre a sorte A escravidão estampa nos olhos E nos bolsos vazios Dinheiro é besouro do olho azul E a pobreza não enxerga cores Só dores Não há paixão com fome Maior que a fome O agudo é corda Do propósito Açoite. (Escrito em 27/05/2020, inspirado no conto Pai contra Mãe, de Machado de Assis, exercício de criação literária proposto por Anna Zepa – Programa Vocacional 2020)